RECALLS - De que forma deveremos olhar para os mesmos?
Estive a reflectir sobre falar ou não deste tema e, conscientemente, acabou por prevalecer o sim, até porque entendo que é sempre melhor falar das coisas, mesmo que tenham algum potencial inflamatório (que não me parece ser o caso!), do que ficar calado e não discutir abertamente o que quer que seja.
É certo e sabido que um Recall (palavra inglesa que irei "dissecar" mais adiante), ocorre com regularidade e não haverá marca que não os faça, umas vezes anunciando-os através do importador de cada país e que por sua vez acaba por contactar os clientes...e noutras vezes e conforme a gravidade, pode provir directamente da casa-mãe e que através dos devidos canais internos, se encarrega de dar as indicações precisas que depois deverão ser seguidas pelos concessionários oficiais.
Ora um recall ou product recall, que traduzido à letra significa algo como "chamamento"/"recolha de produto", envolve em primeiríssimo lugar a confirmação de que existe de facto um defeito ou anomalia que carece de correcção e/ou substituição.
Depois de verificado aquilo que não se encontra conforme, é analisado o impacto na sua utilização, podendo ser dividida logo ali a questão entre urgente e susceptível de perigosidade para a segurança na condução, ou...com impacto diminuto ou mesmo inexistente, mas ainda assim a carecer de uma intervenção em concessionário oficial.
E um recall pode surgir com base em inúmeros aspectos:- problemas de concepção;
- problemas de mecânica;
- deformação ocorrida com o tempo;
- fadiga inesperada do material;
- problemas eléctricos;
- risco de incêndio, etc...
Podem ser tão variadas as causas, que quase se pode dizer que ainda está para vir um caso diferente de todos os outros.
Casos há e não são assim tão poucos, em que é com base naquilo que é relatado pelos clientes e respectivos concessionários, que acaba por levar ao processo de recall, nomeadamente se houver diversos casos idênticos ou sintomáticos a sustentá-los.
Uma qualquer marca se decidir não o fazer, acaba por incorrer num erro que lhe pode custar ainda mais caro do que o próprio recall.
Aliás, é um risco demasiado grande, uma responsabilidade que pode tender para o foro criminal e que ao invés de esconder um problema, acaba sim por dá-lo a conhecer com efeitos ainda mais nefastos para a sua imagem.
Eu pessoalmente tenho encarado os recalls como algo absolutamente normal, aceitando ainda assim e naturalmente, que era bem preferível que nem sequer houvesse motivos para se fazerem...
Porém, há que perceber a existência de estranhas e complexas manifestações no material e que podem aparecer após 1, 3, 5 anos de utilização...ou somente em determinadas condições climatéricas...ou que só ocorrem perante determinadas situações muito específicas de condução intensiva...ou que se manifestam aos poucos e levando a um desagaste continuado mas não compatível com a tolerância do fabricante, etc..
E actuar é um sinal de que o cliente tem de facto importância! É pelo menos isto que eu tendo a acreditar...
Nada fazer, cruzar os braços e olhar para a palavra como algo a evitar a todo o custo, é algo que presentemente os fabricantes não colocam sequer como hipótese.
Por exemplo no mercado automóvel é algo que sucede desde há anos e, acredite-se ou não, nunca antes se viram tantos recalls, desde as marcas de fundo da tabela em termos de vendas, até aos grandes e teoricamente imunes fabricantes que ocupam os lugares cimeiros.
Desde um simples parafuso até uma troca de vários componentes, um recall torna-se não só útil, como também necessário e muitas vezes urgente.
A tolerância para o erro é cada vez mais apertada, o lançamento de novas propostas e materiais são uma constante e o mercado acaba por levar a que as marcas, por muito esforço e injecção financeira que façam, cometam alguns erros que por norma só o tempo acaba por revelar.
A ideia do
step forward está sempre presente em termos de engenharia e tecnologia, tentando levar sempre a cada um de nós o seu melhor.
Mas o que é certo é que podem falhar pelos motivos que atrás referi, nomeadamente no processo de amadurecimento da ideia ou conceito...e aí terá de entrar em acção o dito recall!
Quase podemos dizer que foi o dinamismo do mercado e a cada vez maior exigência de cada um de nós, que conduziu a que as marcas se tenham "inadvertidamente" feito reféns de
timings cada vez mais curtos.
Eu pessoalmente prefiro encarar a coisa de forma um pouco diferente e dividir a responsabilidade, ainda que em proporções distintas...ou seja, é verdade que exijo bastante e enquanto motociclista por um produto cada vez mais apurado e perfeito no seu desempenho e segurança, mas as marcas não deixam de procurar avidamente o retorno rápido do investimento feito na concepção do produto, socorrendo-se cada vez mais de grandes linhas de montagem em que o perfeccionismo (palavra com diferentes interpretações) varia tanto e de forma tão nefasta, que acaba por levar invariavelmente a que chegue à caixa postal um bilhete para fazer uma visita à oficina mais próxima...!