
Depois de um ano difícil com três operações cirúrgicas, os primeiros dois dias de férias de verão tinham que ser aproveitados para dar uma volta de moto. Com a família ainda ocupada, aproveitei para fazer a mochila para dormir fora uma noite e escapar-me de Lisboa ao final da manhã de 6ªf, depois de uma reunião de trabalho manhã cedo.
A ideia era ir para norte e já no caminho pensei em explorar a zona das serras a leste de Arouca. Tinha visitado parte desta área num fim de semana muito chuvoso em 2016 na LML 221 (
http://respiroscooter.blogspot.com/2016/06/freita.html ), e adorei. O problema quando se viaja lento é que o transfere é doloroso e limita muito o raio de acção quando o tempo é curto. Quando chegamos ao local de diversão (serras e curvas) nada bate uma scooter touring espevitada. Mas até lá chegar…
Ora, essa é uma das principais vantagens de ter uma moto maior na “frota”. Quando queremos queimar quilómetros desinteressantes, é pôr os tampões nos ouvidos e ligar o piloto automático na AE durante um par de horas. E já estou em Coimbra. Farto da AE, saio para a N1 e decido visitar o Museu Ferroviário de Macinhata do Vouga. Nunca lá tinha ido, mas para quem gosta de comboios, como é o meu caso, vale a pena a visita guiada.
Depois de um almoço/lanche a despachar, a diversão começa quando passamos para a margem norte do Vouga, primeiro ao lado do rio até Sever, e depois subindo na direcção de Manhouce e todas as aldeias a norte, Gestoso, Gestosinho, Póvoa das Leiras, com a inevitável visita à Frecha da Mizarela, com um caudal de água assustadoramente fraco. Aliás, todos os ribeiros estavam praticamente secos. O final da tarde foi passado a gozar as vistas e as estradas de curvas até a luz baixar, com regresso por Santa Cruz de Trapa e Termas de S. Pedro do Sul (onde me deram um útil e completo mapa da região em papel) até ir jantar e dormir a Vouzela, depois de uma marcação a meio da tarde.
Com cerca de 400kms, 200 em AE e o restante em estradas de serra, estava apreensivo quanto à resistência do meu esqueleto, mas a verdade é que me senti amassado mas sem dores, que é raro e sem dúvida o mais importante.

No dia seguinte, depois de uma boa noite de sono, voltei a subir agora até Arouca, pela estrada da Coelheira. Depois de uns doces conventuais típicos da região, senti-me com energia renovada para explorar o Maciço da Serra da Gralheira, da Freita (que já conhecia) à Serra da Arada e de S. Macário, onde nunca tinha andado. Esta zona foi o que me faltou ver quando vim de LML. Lembrei-me que depois de tantos Portugal de Lés a Lés, nunca tinha ido ao Portal do Inferno e estava farto de ouvir falar! Era a altura certa para lá ir.
Ao contrário da tarde de 6ª, no sábado a tarde aqueceu e o ritmo foi mais lento. Visitei as ruínas das Minas de Regoufe, um complexo pequeno, e a seguir o Portal do Inferno. Para quem não conhece é uma passagem estreita entre dois vales escarpados no xisto, que dá uma sensação curiosa quando lá estamos, de algumas perspectivas parece que a estrada vai acabar no céu. As vistas são vertiginosas, de um lado temos o vale de Covas do Monte, aldeia que também visitei, e do outro lado temos o vale onde fica (embora a maior distância) a aldeia de Drave, que ainda hoje não tem electricidade ou água canalizada, e só é acessível a pé ou por estrada difícil de terra, pouco aconselhável para a Integra. Imagino que pareça uma aldeia de xisto medieval.

Nesta altura já estava a pedir descanso e aproveitei a sombra de um parque de merendas em S. Macário para me estender, comer e dormir uma pequena sesta. De volta à estrada comecei a descer até S. Pedro do Sul, naquelas que seriam as últimas curvas a sério da viagem. Ainda passei à porta do Sr. Ferreira, onde há uns anos bons tive que abandonar a minha Honda CN com o pneu traseiro destruído no regresso de uma inolvidável viagem a solo há mais de 10 anos por terras transmontanas (
http://respiroscooter.blogspot.com/2011/10/linha-tua-v.html ). Desta vez o regresso até Lisboa não teve história e no final o odómetro parcial mostrava 864kms, em cerca de dia e meio.
Cheguei com o corpo cansado, mas mais uma vez sem dores. Foi uma boa desforra de tantas idas à faca!



