Depois do test drive de ontem aqui fica a minha review:

A moto é alta.
Mais alta que a expectativa. Até porque a marca produz cruisers habitualmente "baixinhas".
Estive a consultar as specs indica 840mm de altura no banco.
Mais 10mm que por exemplo a
V85TT que é uma trail com 830mm.
Ainda assim, mesmo com a minha baixa estatura não senti incómodo.
Pois é bastante compacta. E o banco está bem desenhado, sendo mais estreito junto ao depósito.

O peso (226/235kg) não é de todo incómodo.
Não custa levantar a moto do descanso. Não se sente sequer o peso em marcha.
Sente-se apenas nas manobras parado que implique um pé no chão.
E sendo alta, quem é de baixa estatura como eu, terá aquele momento constrangedor em que com o pé direito no chão... a perna esquerda não é suficientemente longa para colocar o descanso ainda em cima dela. O que obriga a sair para colocar.
O banco é duro.
Quem está habituado ou gosta de poltronas certamente irá se queixar.
O material é excelente e permite sair com o corpo em curva mantendo uma aderência adequada.
Tem uma margem simpática que permite recuar o corpo em maiores velocidades. Ou simplesmente impedir que escorregue para trás nos arranques.
Ao arrancar, a embraiagem (de cabo) pega no ultimo terço e quase de repente.
O que obriga a uma pequena habituação a encontrar o "ponto".
Até porque o comportamento do motor é on/off. Logo, exige alguma precisão no acelerador para arrancar numa rotação certa entre o motor a bater ou sair desenfreada a querer derrapar ou levantar a roda.

A posição de condução é muito idêntica à de qualquer naked agressiva.
Pés recuados, tronco direito e um guiador baixo e largo. Aquela posição de halterofilista que transmite confiança para enfrentar tudo que possa surgir pelo caminho.
A protecção aerodinâmica é zero.
Como o guiador é baixo, o LCD quase não aparece na visão periférica.
A única paisagem presente é a estrada. Com se espera de uma moto deste género.
O LCD tem um tamanho adequado. Não tem grande resolução e a imagem até é bastante pixelizada.
Mas tem uma excelente visibilidade mesmo com luz solar directa.
Tem dois modos de visualização. Um mais clássico com mostradores redondos e um mais desportivo.
E tem todos os gadgets que nos dias de hoje são comuns. Os 3 mapas "normal", "sport" e "rain". A integração com o telemóvel. E outras settings que não justificou perder tempo a explorar.


O motor tem um comportamento on/off.
Saí do local ainda com o mapa "normal" e logo na primeira curva mal dei gás.. ela quis atravessar!
O controlo de tracção actuou de imediato... ainda assim o comportamento é muito permissivo e sente-se a traseira abanar.
Cerca de 10km depois passei para o "sport", com que fiz de Lisboa a Bucelas, as curvas da N116 e regresso por Cabeço de Montachique, Loures até novamente Lisboa.
Gostei muito da entrega do motor.
Muito vigoroso em baixas. Bastante desembaraçado nos restantes regimes, transmitindo sempre a sensação de estar a transmitir força bruta nas rodas.
E dá para sentir 3 patamares distintos:
Consegue ser civilizada até por volta das 4000rpm se o uso do acelerador for milimétrico.
Mas enrolando com mais intensidade ela responde de forma vigorosa.
E isto torna-a muito divertida em cidade e localidades. Depois de se sair num entroncamento ou rotunda, a retoma da velocidade apela a um bocadinho extra de acelerador para lembrar a razão que pode levar alguém a comprá-la.
Na casa das 5/6000rpm que ela parece ser mais racional.
Fiz de Loures a Bucelas com algum trânsito nestes regimes e deu a sensação que é perfeitamente possível andar com ela em "modo passeio" sem a tentação de querer ir mais depressa.
Porém, quando ela sobe das 6000rpm torna-se mais espevitada.
Não é uma subida de regime rápido com se sente nos twins hiperquadrados das desportivas. É uma subida mais lenta mas em força como nos boxers mais antigos.
Em estrada e livre de trânsito a transição entre estes patamares não se nota.
Tem no entanto uma aceleração meio "elástica"... e com um efeito de "fisga".
Ou seja, a qualquer regime quando se dá acelerador... sente-se imediatamente o motor a dar resposta, mas só depois nos sentimos catapultados em aceleração.
Depois de dormir sobre o assunto, fico com ideia que isto poderá estar relacionado com settings de electrónica que não explorei como o anti-wheelie.
O "fueling" da moto poderia ser melhor.
Ao longo do percurso, nomeadamente na N116 onde há troços de curvas muito boas intercalados por duas ou três zonas rápidas senti alguns engasgos nessas transições. E acredito que isto, tal como a sensação de fisga possa estar relacionada com os mapas não estarem devidamente optimizados. (Talvez por outras razões como as emissões)
Não gostei do tacto do acelerador. Tem um curso demasiado longo e uma mola muito dura.
Como tenho uma lesão antiga no pulso direito, já me estava a ressentir no final destes cerca de 10km mais entusiasmantes da N116.
Ainda relativamente ao motor, algo que me desapontou foi estar limitado electrónicamente para não passar dos 200kmh. Pois chega lá confortavelmente e tem ainda rotação para explorar.
No entanto, ela pode simplesmente estar limitada por configuração.
A caixa é muito decente.
Tem um escalonamento muito idêntico ao boxer, sentido-se um salto gigante entre relações nas passagens em baixo regime. Mas que mal se sente na segunda metade do conta-rotações.
É bastante precisa, e em subida de relação as passagens directas fluem muito bem.
No entanto, tem um ponto-morto fantasma entre 5ª e 6ª que pode obrigar a que esta passagem tenha de ser feita com maior convicção.
Gostei muito da ciclística da moto.
É muito incisiva em curva. Sendo alta sente-se que tem muito para deitar. E muito poderosa na saída.
Porém tudo isto é um autêntico desafio. Pois nunca me consegui sentir confiante.
E depois de pensar um pouco no assunto, aponto dois motivos:
A travagem não estava ao nível do conjunto.
E isto é estranho, porque tem as mesmas pinças e bomba que equipa diversas nakeds e superdesportivas que já experimentei e travam muito bem.
Comentei isto com o vendedor, que estranhou pois teve um feedback diferente dos jornalistas.
Mas a realidade é que quando fui embora, senti logo a diferença na travagem para a minha scrambler que utiliza exactamente a mesma Brembo M4... mas só tem uma! (e alimentada por uma bomba muito inferior!)
Poderá ser algum problema com a unidade de teste. Porque o equipamento é de referência.
Senti pouco tacto na travagem. E achei que tinha fazer mais força que o suposto para travar.
E nas zonas divertidas acabei por travar mais cedo que o habitual.


O que realmente não gostei foi dos pneus.
Não me transmitiram confiança nenhuma. Não têm grip adequado ao barrote de binário que o motor debita. E acredito que influenciam negativamente também a travagem.
Só no fim do test drive é que confirmei o que ela tem calçado.
Poderá ser dos Dunlop que aparentemente foram desenvolvidos para esta moto, parecem mais orientados ao look que propriamente performance. Mas também poderá ser pelas medidas menos convencionais face ao que estou habituado (Tem atrás um 150 em jante 18.)

A moto por ser alta e ter peseiras levantadas permite deitar muito mais do que o pneu permite.
O vendedor referiu-me que para brincar mais a sério... só com outros pneus. E há bons pneus desportivos com medida 150. Aliás, é o que a minha Cagiva Mito consome.
Mas... fico céptico quanto a um 150 cuja "contact patch" chega para uma 125 possa ser suficiente para uma 1200 com 120Nm.
Quanto a resto... tudo é muito positivo.
A moto é bem construída e tem bons acabamentos.
Ao contrário da expectativa não é uma boa moto para cidade.
É ágil, mas obriga a algum empenho para não se andar sempre com a roda a atravessar.
E aquece muito as pernas. Sobretudo quando se para nos semáforos.
Mas é uma excelente opção para quem procura uma moto bonita e diferente.
E sobretudo muito divertida para conduzir por estradas de curvas, preferencialmente sozinho.
Porque se for em ritmo de picardia ela torna-se muito exigente. Pois tem um potencial enorme, mas limitações que obrigam enorme empenho para se conseguir retirar proveito do que poderia oferecer.
Para o cliente Monster habituado a algo com boa dinâmica em curva esta não será uma moto que irá satisfazer se pretender roer calcanhares a desportivas em estrada de montanha. Poderá mesmo ser uma decepção por ser exigente.
Mas para o cliente R nineT esta será uma alternativa bem mais divertida a ter em conta.
Já agora, a versão "Race-Replica" com o akrap:
